“Espero que a gente consiga fazer um grande circle pit, um verdadeiro “liquidificador humano”. Espero que a grade não seja tão distante, para que eu possa pular no meio da galera e que todo mundo me segure!”
Para começar, obrigado pelo seu tempo e por estar aqui com a gente. Vou começar falando sobre o Unholy Retribution, o álbum mais recente. Fazia cerca de 12 anos que vocês não lançavam material novo, e deu para perceber uma pegada diferente, mais “internacional”, com temas voltados ao Oriente Médio e conflitos globais. É um contraste com os discos anteriores, que focavam muito na política local, como a ditadura e o genocídio indígena no Brasil. Como foi essa transição de cenário, de abordar um tema mais global em vez do estritamente local?
Interessante essa perspectiva. Para mim, o Unholy Retribution continua sendo um disco altamente político, mas ele se vale da alegoria da vingança para tratar da retribuição que achamos que os neofascistas, tanto no Brasil quanto ao redor do mundo deveriam receber.
Nesse contexto de fundamentalismo religioso cristão que vivemos tão forte no Brasil, sentimos que fazer um disco satânico, com cruzes de cabeça para baixo e violência infernal, teria um significado ainda maior. O disco brinca com essa alegoria para tratar de temas políticos específicos. Temos músicas como Rot in Hell, que fala sobre os experimentos horríveis feitos durante a pandemia no Brasil, e Shadow of the Sick, que é sobre a libertação da Palestina. Entendemos o Thrash Metal como um subgênero necessariamente político, mas quisemos usar essas metáforas infernais exatamente para incomodar quem a gente queria incomodar.
Bacana. E pegando esse gancho da pegada mais “old school”, vi que o produtor Yarn Yelen morou com vocês por duas semanas em Brasília para produzir o disco. Hoje em dia, quase tudo é feito online, mas vocês escolheram essa imersão. Como a presença física dele e essa vivência refletiram no resultado final e na experiência da banda?
Foi fundamental. Nós nos entendemos hoje, aos 40 anos, como uma banda de outra geração. Muitas bandas atuais têm um “crânio” que faz tudo no computador e manda para os outros; nós somos incapazes dessas modernidades. Precisamos estar os quatro no estúdio, tocando e trocando ideias sobre cada riff.
Somos muito agradecidos à nossa gravadora, a Kill Again Records, que entendeu esse espírito e topou a aventura de trazer o Yarn para Brasília. Ele ficou na minha casa, comendo em self-service brasileiro e pegando ônibus; viveu a vida brasiliense. Essa imersão de acordar e dormir falando sobre o disco faz toda a diferença. O álbum soa como um clássico porque respeitou esse espírito. Em tempos de Inteligência Artificial, foi uma bela lição entender que Heavy Metal se faz melhor com gente. Aliás, muitas coisas na vida se fazem melhor com gente.
Em outra entrevista, você comentou que o pessoal do underground ainda valoriza muito o físico: vender zines, panfletar na porta de shows, o cassete, o CD. Você acha que esse contato humano e o processo físico têm mais valor do que apenas colocar a música no Spotify ou no YouTube?
Eu só sei viver dessa forma. No show de lançamento do Unholy Retribution, fizemos flyers para distribuir na porta e colamos cartazes em paradas de ônibus. O underground sempre foi sobre tomar os meios de produção a nosso favor. Antigamente, você não tinha acesso à TV ou rádio, então criava seu próprio zine ou programa em rádio comunitária, como eu fiz por anos com o Underground Voices.
A magia do underground gira em torno da ética do Do It Yourself (Faça Você Mesmo). Hoje, com a massificação das tecnologias, temos o lado bom como estarmos conversando agora entre Londres e Brasília, mas o underground também se tornou refém das redes sociais. As bandas viraram “influencers”, focadas em visualizações e selfies. Acho que o underground se desarmou criticamente e acabou perdendo parte do seu espírito original. Enquanto pudermos, manteremos os valores naquilo que acreditamos ser o verdadeiro underground.
Agora falando sobre o futuro próximo: o show no Bangers Open Air em abril. Como o Violator costuma ter hiatos grandes, esse show será o “tiro de largada” para uma turnê maior ou é mais um checkpoint na trajetória da banda?
Cara, estamos todos com 40 anos. Todos no Violator nasceram em 1985, o ano do Bonded by Blood. Precisamos saber envelhecer, conciliando a banda com nossos trabalhos e famílias. Não cabe mais nas nossas vidas aquele tipo de turnê que fazíamos antigamente, ficando seis meses viajando pela América do Sul como ciganos. A juventude passa e precisamos entender essas contradições.
Estamos muito animados com a repercussão do novo disco e estamos fazendo uma turnê que encaixe na nossa realidade atual. Já fizemos quatro shows de lançamento e temos datas marcadas em Recife, Fortaleza e Goiânia, mas é sempre no esquema de “bate e volta” no fim de semana. Na segunda-feira, às 7 da manhã, nosso baterista é professor de história e tem que estar dando aula. O Bangers Open Air será uma marca importante, mas dentro desse novo ritmo: o ritmo dos 40 anos. No segundo semestre, devemos fazer datas na América do Sul e, no ano que vem, fora do continente, sempre mantendo esse esquema.
E sobre a apresentação em si, o show terá uma pegada mais produzida ou seguirá aquele estilo cru e underground que é a marca registrada de vocês?
O Thrash Metal acontece na troca de energia. Por isso, às vezes um show pequeno, sem palco, com todo mundo misturado derrubando microfone, é melhor. Vamos levar essa honestidade para o palco grande do festival. O Violator nunca teve firulas, nunca usou “VS” ou vinhetas, e vai continuar assim. Somos nós quatro, “um-dois-três-quatro”, Thrash Metal e pronto. O mais importante é bater cabeça para o riff. Pirotecnia e visual são secundários; o riff é o que manda.
Para encerrar, que mensagem você deixaria para a galera que vai estar no mosh pit esperando por vocês?
É uma honra enorme representar o underground de Brasília e o Thrash brasileiro nesta edição do Bangers Open Air. Espero que a gente consiga fazer um grande circle pit, um verdadeiro “liquidificador humano”. Espero que a grade não seja tão distante, para que eu possa pular no meio da galera e que todo mundo me segure!
Agradecimentos
Agradeço ao entrevistador Augusto Bernardi e a banda Violator pela disponibilidade.
Também deixo um agradecimento especial à Danielle Monteiro, da Agência Taga, pelo suporte e pela intermediação que tornaram esta entrevista possível.